Reportagens

terça-feira, 6 de julho de 2010

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL FRENTE AOS DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS1
Marcos Reigota
Universidade de Sorocaba
marcos.reigota@uniso.br

Há exatamente doze anos, nas dependências desse hotel e, logo ali em frente, no Aterro do Flamengo foi realizado o Fórum Global da Conferência da ONU/Rio-92. Quem esteve presente é testemunha da alegre e intensa torre de Babel daqueles dias. Vivíamos os primeiros anos do desmantelamento do império soviético, Collor estava sendo desmascarado, caminhávamos pelas ruas protestando contra a arrogância do Bush-pai e apostávamos num diálogo entre os hemisférios norte-sul.

Na Rio-92 muitos tratados e convenções foram negociados e assinados, muitos encontros e desencontros aconteceram que enriquecem a história do nosso movimento.
Evidentemente que a educação ambiental e muitos de nós estiveram presentes de uma forma ou de outra nesses debates. Uma análise mais pessimista desse movimento afirma que nada mudou desde então. Uma análise mais otimista afirma que mudanças significativas aconteceram, embora com processos e procedimentos questionáveis.

Tendo como base essas correntes de opinião facilmente localizadas nas conversas, discursos públicos e literatura especializada, gostaria de abordar alguns aspectos das duas.
Na vertente pessimista podemos concordar que nada mudou. O mundo presencia uma escalada de barbárie e de totalitarismos, organismos internacionais como a ONU estão completamente controlados pelos EUA, a violência com que grupos e Estados reivindicam e impõem suas idéias está numa escalada que desafia nossos limites diariamente. Do Burundi à Colômbia, da Rússia ao Sudão, do Oriente Médio aos Estados Unidos, da ex-Iugoslávia a Angola, em Madri e na Cidade Maravilhosa estamos prisioneiros não só dos nossos medos e paranóias, mas também da paranóia e da possível barbárie do nosso vizinho. Países pobres continuam investindo maciçamente em armas cada vez mais destrutivas e a velha e temida bomba atômica lançada pelos EUA sobre a população civil de Hiroshima e Nagasaki, ainda é considerada um instrumento de soberania nacional. A Amazônia continua a ser desmatada com índices alucinantes e parece não haver mais dúvidas quanto ao aquecimento global.
Empresas relacionadas com o grande capital e nada ecológicas como a indústria dos agrotóxicos, automobilística, de sementes transgênicas e os bancos tomaram posse das noções de desenvolvimento sustentável e de responsabilidade social, amplamente difundidos por seus departamentos de marketing e relações públicas financiando e apoiando atividades e grupos históricos da educação ambiental.

Partidos políticos nos quais podíamos depositar alguma confiança em busca de uma sociedade planetária mais justa e sustentável como o Partido Verde alemão, Partido Trabalhista inglês e o Partido dos Trabalhadores no Brasil se renderam ao credo militarista e desenvolvimentista, abandonando sua tradição e legado histórico pacifista e emancipatório.


No Brasil o programa político do PT passou a ser elaborado em agências de publicidade em aliança com as grandes instituições financeiras e redes de comunicação.

Enorme parcela do movimento foi cooptada e adota como estratégia o pragmatismo, e o método stalinista de apagar da história aqueles e aquelas que não se iludiram por alguns trocados e momentos do capital financeiro e simbólico do poder.


Nesse quadro não temos como discordar dos pessimistas, e podemos dizer que no melhor dos casos a educação ambiental ainda se encontra na fase inicial do seu projeto de construção de uma sociedade justa, pacífica e sustentável. Entendida como educação política, a educação ambiental deve aglutinar forças, dialogar, aproximar e aprender com os movimentos sociais que se organizam no mundo todo, que são contrários ao modelo político, econômico, social, cultural e ecológico do totalitarismo capitalista.


Aqui temos que enfatizar que somos herdeiros do legado de Paulo Freire e continuadores de sua obra e que apostamos na pertinência política e pedagógica do Fórum Social Mundial de Porto Alegre.

Como fazer isso? Essa é uma questão que precisamos ter em mente e discuti-la nesses dias cariocas e nos próximos anos.

Na perspectiva mais otimista, podemos também concordar que aconteceram mudanças e avanços significativos: o movimento internacional da educação ambiental ganhou legitimidade nas agências internacionais, nos ministérios, nas instâncias públicas, nas universidades, nas associações cientificas, nos meios de comunicação de massa, nos movimentos sociais, etc. No entanto, esse entusiasmo deve ser sempre relativizado, pois a educação ambiental que obteve maior legitimidade e visibilidade é aquela que não coloca em xeque o modelo de desenvolvimento econômico, o modelo de representação e participação política, nem os fundamentos político-pedagógicos no cotidiano das instituições escolares e acadêmicas. No aspecto mais científico da educação ambiental é de se perguntar quais são as rupturas teóricas e metodológicas com os paradigmas hegemônicos que têm sido realizadas e quais as possibilidades de construção e sobrevivência de perspectivas teóricas e metodológicas radicais que não contam com o apoio e o poder simbólico das mais conhecidas instituições, universidades, agências de fomento à pesquisa, editoras e revistas especializadas “indexadas”.

Nesse contexto, creio ser cada vez mais importante que todos nós envolvidos com a educação ambiental nas universidades, institutos de pesquisa, ONGs e instituições públicas tenhamos claro a importância da competência técnica. Precisamos deixar de lado as explicações e argumentações ingênuas (embora ricas em capital simbólico) que são amplamente difundidas no nosso meio.

Temos que nos afastar dos argumentos científicos fast food, que se querem “holísticos” mas, que banalizam e simplificam a complexidade política e ecológica da educação.

Só uma perspectiva transdisciplinar que alie as contribuições dos diversos saberes, sensibilidades e vivências poderá nos garantir um mínimo de competência técnica. É necessário pesquisar, estudar, dialogar, ampliar os nossos argumentos com base no que há de sólido e pertinente na cultura, nos movimentos sociais e na produção científica contemporânea. É necessário produzir conhecimentos e intervenções pedagógicas que levem em consideração as particularidades e singularidades culturais, políticas, sociais e ecológicas.

Mas a competência técnica, da qual as universidades e institutos de pesquisa têm grande responsabilidade, não pode de forma alguma estar desprovida do compromisso político de construção de uma sociedade sustentável, essa entendida como uma sociedade justa, livre dos totalitarismos e do controle dos corações e mentes. Quando falamos em compromisso político precisamos ter claro que nos referimos ao compromisso político que tem como princípio o direito à vida das diferenças, dos desviantes, dos “indisciplinados”. Nosso compromisso político é aquele com a possibilidade de ampliar a influência, presença e intervenção dos/das excluídos dos espaços de definição de diretrizes e políticas públicas, locais, nacionais e planetárias. A competência técnica e o compromisso político da educação ambiental devem aprofundar e tornar públicas as noções de autonomia, responsabilidade, justiça e pacifismo.

Nesse sentido, creio que o grande desafio à educação ambiental é ampliar as noções políticas e existenciais da vida, como direito e valor universais e continuar leal aos princípios que fizeram até o momento a sua história e legitimaram a sua pertinência.


1 Texto apresentado no II Congresso Mundial de Educação Ambiental -Rio de Janeiro, 16 de setembro de 2004.

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